Revista Língua Portuguesa - EDIÇÃO 46 - 08/2009
Mudanças promovidas pelo MEC têm impacto nas provas que medem desenvoltura dos estudantes com a linguagem
por Adriana Natali
A partir deste ano, o Exame Nacional do Ensino
Médio, o Enem, será diferente. Ele servirá como processo seletivo para
ingresso nas universidades e nos institutos federais. E as mudanças nas
questões envolvendo linguagem serão um dos seus pilares.
A expectativa do MEC é que todas as instituições
federais adotem, de alguma forma, o novo Enem como seleção. Mais de 3
milhões de estudantes de todo o país farão o exame, marcado para 4 e 5
de outubro.
Até agora, 42 das 55 universidades federais já
declararam usar o Enem de alguma forma como ferramenta de seleção para
ingresso. Algumas já adotam o exame para selecionar um percentual de
suas vagas, ficando a aplicação de vestibulares como critério para
vagas restantes. Há universidades que adotam o Enem só para filtrar
candidatos menos preparados em uma primeira fase, o "peneirão", e usam
seus vestibulares tradicionais na segunda e definitiva fase seletiva.
Até 2008, o Enem era uma prova clássica com 63
questões interdisciplinares, sem articulação direta com os conteúdos
ministrados no ensino médio e sem a possibilidade de comparação das
notas de um ano para outro. A proposta do MEC é que o exame possa ser
comparável no tempo e aborde diretamente o currículo do ensino médio.
Cotidiano
O exame será composto por perguntas objetivas em
quatro áreas do conhecimento e suas tecnologias: linguagens e códigos;
ciências humanas; ciências da natureza, e matemática. Cada grupo de
testes será composto por 45 itens de múltipla escolha, aplicados em
dois dias.
Ver o Enem como se fosse vestibular é um jeito de o
MEC sinalizar outro tipo de formação ao ensino médio, voltada para a
solução de problemas em vez do mero acúmulo de conteúdo. Para Marcia
Molina, coordenadora de letras da Unisa, o exame passa a avaliar e
forçar o ensino básico a trabalhar conteúdos de linguagens atuais e
próximos do cotidiano do educando.
- O fato é que, cedo ou tarde, o Enem será
usado, desde que devidamente aperfeiçoado. Isso porque parece mais
cômodo para as universidades transferir toda a responsabilidade de um
complexo processo de organização e gerenciamento de um vestibular. Além
dos problemas logísticos como inscrições de candidatos, elaboração,
produção, impressão e aplicação de provas, há o cuidado redobrado com a
segurança para manter a lisura em todas as partes do processo - afirma
Antonio Carlos Xavier, da Universidade Federal de Pernambuco.
Efeitos
Doutora em linguística e professora da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, Jane Quintiliano afirma que este
é um momento em que se assiste a um movimento, na educação, que
promoverá uma série de efeitos que não se limita aos exames de
vestibular do país, que ainda apostam em práticas avaliativas.
- Haverá, em grau maior ou menor, uma redefinição
no dia a dia da escola, em seus objetos de ensino e aprendizagem e, por
extensão, isso chegará aos cursinhos preparatórios para o vestibular.
Essa mudança desenha novo ensino, professor e perfil de aluno. O
conteúdo passa a ser tratado como um objeto a ser aprendido, a ser
apropriado pelo aluno como um conhecimento que se presta a uma
finalidade, que prevê um uso social, contextualizado no quadro de uma
situação-problema - explica.
A consequência direta desse raciocínio é que os
critérios de avaliação de língua portuguesa e redação do Enem seguem a
tendência de medir competências e habilidades, não tanto a terminologia
dominante nos estudos de gramática. Interessa desenvolver o que está
sendo tomado como objeto de conhecimento ou de aprendizagem. Isso
implicará uma avaliação que não priorize a mera identificação,
decodificação, classificação e nomeação dos fenômenos e objetos
estudados, mas privilegie o raciocínio, a análise, a interpretação, as
inferências, em que o aluno deve ter a informação e saber como operá-la
conforme a situação em que ela se inscreve.
Enunciação
A ênfase, nas provas específicas, será no uso dado à
língua portuguesa nas mais diversas situações de comunicação. Serão
analisados o texto e o evento comunicativo que o atualiza, ou seja, os
enunciados que o compõem. Os elementos linguísticos, textuais,
enunciativos, discursivos e conceituais deverão ser lidos e analisados
tendo em vista as condições de produção e recepção do texto em exame.
- Sob esse enfoque, a língua portuguesa ganha vida
no texto, na enunciação. O seu trabalho de análise não deve ser aquele
pautado por uma orientação metalinguística, em que se privilegia um
saber gramatical apartado de outros saberes comunicativos, discursivos,
pragmáticos - afirma Jane Quintiliano, professora da PUC-MG.
Nas provas objetivas, de marcar "x", os
conhecimentos do léxico da língua portuguesa e das relações
lógico-semânticas, e a capacidade de realizar cálculos pragmáticos para
descobrir a intenção dos autores de textos orais e escritos, também
serão cobrados com maior intensidade do candidato. O aluno deve dominar
os vários mecanismos sintáticos e saber como utilizar adequadamente os
sinais de pontuação, as formas de concordâncias verbal e nominal, os
aspectos e modos de conjugação dos verbos, elementos de referência
pessoal, espacial e temporal, pois tudo isso será objeto de avaliação
na prova.
- Certamente não serão pedidas as
nomenclaturas desses fenômenos, mas seu funcionamento na língua. Essa é
uma das principais virtudes do Enem e que terá continuidade a ponto de
desencorajar aulas de português centradas na mecanização de regras sem
uma compreensão da sua verdadeira funcionalidade - opina Xavier, da
UFPE.
Já a redação deverá ser estruturada na forma de
texto em prosa do tipo dissertativo-argumentativo, a partir de um tema
de ordem social, científica, cultural ou política. Diminui, assim, a
possibilidade de o candidato contar com uma preparação focada numa
diversidade de gêneros de texto, como narrativas e cartas (dirigida a
interlocutor específico, diferentemente da dissertação argumentativa,
que se dirige a interlocutor genérico, universal).
- Nesse sistema de avaliação, prevê-se um aluno
cuja vida acadêmica tenha lhe proporcionado o desenvolvimento de uma
competência discursiva que o capacite a se constituir usuário da língua
e dos discursos que o cercam. Portanto, desenha-se um sujeito dotado
de uma autonomia, de uma reflexão, de uma posição responsiva, dialógica
com a sua fala e a fala dos outros com quem interage - explica Jane
Quintiliano.
Atenção
Os critérios para a avaliação da redação, aplicados
pelos professores de português selecionados pelo Enem, foram baseados
nas cinco competências da prova objetiva (dominar linguagens, conhecer
fenômenos, enfrentar situações-problema, construir argumentação e
elaborar propostas de solução levando em conta os direitos humanos e a
diversidade sociocultural).
Cada uma dessas competências corresponde a um dos
cinco aspectos esperados no texto. Assim, o candidato deve compreender a
proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de
conhecimento para desenvolver o tema na estrutura de um texto
dissertativo-argumentativo; demonstrar domínio do padrão da língua;
selecionar, relacionar, interpretar e organizar informações, fatos,
opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista; demonstrar que
sabe usar os mecanismos linguísticos necessários para a construção da
argumentação, e elaborar proposta de solução para o problema abordado,
mostrando respeito aos valores humanos e considerando a diversidade
sociocultural.
Para Lílian Ghiuro Passarelli, professora de
português da PUC-SP, o candidato atento, que lê com atenção toda a
proposta, terá à disposição as informações de que necessita para
produzir seu texto e os critérios com os quais será avaliado. No caso
da PUC-SP, as propostas são construídas com textos que devem ser
contemplados pelo candidato ao produzir sua redação. Isso implica que o
aproveitamento da "conversa" entre os textos geradores da proposta é
um dos critérios de avaliação. De acordo com o tratamento que o
estudante confere à articulação das ideias presentes nos textos de
apoio, com mais ou menos espírito crítico, a pontuação pode oscilar.
- Outro critério costuma ser a adequação do texto
ao desenvolvimento do tema. Se, por exemplo, for solicitada a produção
de texto dissertativo-argumentativo com base em tema gerado pelos
textos de apoio, a estrutura da redação tem de se apresentar compatível
com esse tipo de texto. O uso da norma culta também é um critério que
não se restringe apenas à correção gramatical, mas ao uso adequado de
estilo ou registro, com propriedade de termos e construções frásicas,
de acordo com a situação discursiva. E a presença do título tem de ser
adequada ao texto - explica Passarelli.
Desde a criação do Enem, em 1998, o desempenho dos
candidatos a universitários em provas de língua portuguesa e redação é o
que mais preocupa os professores. Dados de 2008 mostram que a média
geral nas provas objetivas, considerando alunos de escolas públicas e
privadas, foi de 41,69, numa escala de 0 a 100 pontos. Em redação, a
média ficou em 59,35 pontos. Esses resultados não são diferentes dos
observados nas avaliações dos anos anteriores.
Desempenho
Nas provas de língua portuguesa, com questões
objetivas, o problema mais comum se refere à compreensão de leitura da
pergunta e dos textos usados como exemplo. Quanto à prova de redação,
tem havido muita repetição de fórmula, como se o ensino de produção
textual fosse pré-moldado.
Um dos problemas de natureza gramatical que parece
ter aumentado foi a acentuação ortográfica, o que deve se agravar com a
adoção do novo acordo ortográfico. Há estudantes que, na dúvida (ou na
"certeza" de que os acentos "caíram"), não acentuam praticamente nada.
Um ponto que também aflige é a ortografia errada de palavras que estão
presentes nos enunciados da prova. Problemas de paralelismo sintático e
semântico são bastante comuns.
- Entre tantas ocorrências, um problema comum é o
título dado pelos candidatos a suas redações. Além de muitos não
"batizarem" seu texto, há os que até o batizam, mas por vezes a
obviedade é tanta que o título acaba não cumprindo seu papel de dar a
conhecer o que será tratado no texto. Há casos em que o título até se
apresenta em adequação ao texto produzido, mas é tão lugar-comum que a
carga de informação que ele deveria oferecer acaba praticamente nula -
afirma Lílian Passarelli.
Teoria e prática
Ao final do ensino médio, prevê-se que o aluno
compreenda e use um registro da língua portuguesa adequado às mais
diversas situações de comunicação das quais participa como produtor e
ouvinte ou leitor.
A construção dessa competência pressupõe, pelo
aluno, o uso de diferentes habilidades, como avaliar a situação de
comunicação - quem são os interlocutores, o propósito do texto, seu
conteúdo temático, o objetivo em mente, os efeitos que se pretende
alcançar, o gênero de discurso em cena - selecionar a variedade de
língua que se mostra eficaz à situação de comunicação, o estilo a ser
empregado, e planificar o texto. Em outras palavras, o que está em jogo
são os saberes ou os conhecimentos relativos aos modos de agir
discursivamente em uma comunidade.
- É preocupante que grande parte dos textos
produzidos em vestibular dá-nos um retrato das práticas de escrita no
mundo escolar: são esvaziadas de sentido, pois não remetem a situações
de escrita que se aproximam das práticas discursivas de nossa
sociedade. Os candidatos parecem não lidar, no curso de sua produção
escrita, com um projeto de dizer, traçado, muitas vezes, na proposição
da tarefa - diz Jane Quintiliano.
Everaldo Pinheiro, professor de literatura da
Universidade São Judas Tadeu, lamenta os analfabetos funcionais.
- Os alunos escrevem e leem, mas não interpretam o
que leem e não dão sentido ao que escrevem. A função do Enem é forçar
as escolas a uma postura de eficiência no conhecimento da língua
portuguesa e de sua estrutura - explica.
A falta de compreensão e os problemas de
desenvolvimento textuais têm sido graves, diz Carlos Augusto Andrade,
pró-reitor de graduação da Universidade Cruzeiro do Sul.
- Há redações que não traduzem o mínimo de
coerência e pertinência ao tema proposto. Muitas são escritas numa
variante coloquial, com incidência da modalidade oral e não respeitando
o contexto de produção que exige linguagem mais apurada. Percebe-se
falta de conhecimento de mundo e os conhecimentos de estruturação
textuais - explica.
Dificuldades
O reitor da Universidade de Sorocaba, Aldo
Vannucchi, coleciona exemplos de tropeços em vestibulares. Há muitas
marcas da oralidade (treis, vamo...); dificuldade de distinguir os
gêneros dos textos (descritivo, narrativo, dissertativo); de organizar e
dar coesão ao texto.
- Os candidatos revelam, em geral, dificuldades no
domínio das regras da norma culta. Na redação, faltam aprofundamento do
tema, concatenação dos parágrafos e pontuação. Poucos alunos reveem,
corrigem e aprimoram o que escrevem - diz.
Antonio Carlos Xavier, da UFPE, fez
pesquisa, em 2005, com um grupo de 50 professores de português, pois
acreditava que muitos deles não dominavam aquilo que ensinavam: a
produção de texto. - Descobri que a falta de prática levou muitos
deles a perder a habilidade de escrever. Grande parte dos nossos
universitários sai dos cursos de letras e pedagogia sem dominar aquilo
que lecionam e essa falha se perpetua em toda a sua vida profissional. A
consequência é o excesso de aulas de gramática e os escassos momentos
para a produção de texto. Quando solicitada, faz-se de forma
inadequada, instruindo o aluno a escrever sobre um tema às vezes
desconhecido para ele. A escrita não é precedida por uma discussão oral
sobre o tema nem pela leitura de textos que o abordem. É preciso
subsidiar o aluno de informação para que possa construir um texto com
um mínimo de qualidade, pertinência e relevância - explica.
Investimentos
Para Roberto Baronas, professor do Departamento de
Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), é necessário um
investimento político e financeiro na formação não apenas continuada,
mas, principalmente, permanente dos nossos professores. Esse
investimento implicaria, por exemplo, mobilizar de forma efetiva as
contribuições das mais diversas ciências da linguagem para se pensar o
ensino de português e de redação na escola.
- Enquanto a escola estiver presa a uma abordagem
estritamente gramatical, que não considera o uso e o funcionamento
discursivo da língua, nossos alunos continuarão com baixo desempenho
escolar - afirma.
Reestruturação
Professora do curso de Letras da Universidade
Anhembi Morumbi, Débora Malletezarim de Angelo concorda que é preciso
haver uma maior valorização da categoria.
- Valorizar a profissão de professor e formar
profissionais dispostos a estudar sempre, e não apenas no período da
graduação, é uma das formas de melhorar a qualidade do ensino nas
escolas - afirma.
Segundo o MEC, reestruturar o Enem para usá-lo como
prova unificada evidencia o papel que o exame já cumpre. Em 11
edições, a procura pelo Enem subiu de 150 mil para mais de 4 milhões de
inscritos, sendo que mais de 70% dos participantes afirmam que fazem a
prova com o objetivo maior de chegar à faculdade.
Um inconveniente que o MEC quer contornar com o
novo modelo é a descentralização dos processos seletivos, que favorece
candidatos com maior poder aquisitivo, capazes de diversificar suas
opções na disputa por uma vaga. Por outro lado, restringe a capacidade
de recrutamento pelas universidades públicas, desfavorecendo aquelas
localizadas em centros menores. Outra característica nociva do
vestibular tradicional é a maneira como ele acaba por orientar o
currículo do ensino médio.
Se a iniciativa do MEC terá adesão de todas as
instituições, é cedo para dizer. Seja qual for o futuro do exame, dizem
os especialistas, os temas de português e a redação serão alvo de
atenção redobrada e mudanças, que têm tudo para ser benéficas.